Destaque 2, Notícias › 14/08/2013

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Entrevista com Frei Michael Perry

michel_pe Por Moacir Beggo (*)A Jornada Mundial da Juventude foi um tempo de graça para os franciscanos. De um lado, o Papa Francisco, que humildemente revelou ao mundo a inspiração para o seu Pontificado: São Francisco de Assis. Do outro lado, o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores e representante do Poverello de Assis, o norte-americano Frei Michael Perry surpreendeu a todos com sua cordialidade, simplicidade e alegria. Desde a sua eleição, no dia 22 de maio último, havia uma expectativa com relação ao novo Ministro, talvez devido ao fato de que ele pouco aparecia nas mídias. Mas bastaram algumas horas ao seu lado para quebrar qualquer distanciamento. Franciscanos ou simpatizantes de São Francisco descobriram logo que poderiam ter a atenção de Frei Michael. Conclusão: o Ministro Geral teve de passar por uma sessão de fotos. Todos queriam uma foto ao lado dele como  lembrança. Frei Michael fala da escolha do Papa pelo nome Francisco e tudo que representa o carisma franciscano, os desafios da Ordem Franciscana no mundo atual, a crise de vocações, o futuro dos jovens na Igreja e conta um pouco de sua vida e sua vocação. Acompanhe!

Comunicações – Como o sr. recebeu essa maior visibilidade da Ordem Franciscana que o  Papa Francisco provocou ao se inspirar em São Francisco de Assis?

Frei Michael Perry – Antes de tudo, quero agradecer por essa oportunidade de falar com os frades e com toda a Família Franciscana. Depois, falando especificamente, temos o impacto da vida e da escolha do nome de Francisco feita pelo Cardeal Bergoglio, agora Papa Francisco, que é jesuíta e se inspira em São Francisco de Assis. Vejo que talvez o mais importante não é o fato de ter escolhido este nome, mas antes a sua própria vida, a coerência de sua vida. Durante todo o tempo de seu serviço, de seu ministério sacerdotal na Argentina, ele procurava sempre uma proximidade aos pobres. Eu diria que ele compreendeu algo que também Francisco compreendera na sua vida: que se nós, os franciscanos, pudermos permanecer perto dos pobres, poderemos descobrir uma outra face de Deus. E esta presença, esta face de Deus nos ajuda a entrar na profundidade da nossa vocação franciscana. Se nós não tivermos outras coisas além dessas duas palavras “sine proprio” (sem nada), que nos colocam numa relação nova de irmãos e irmãs, que mundo nós poderemos sonhar juntos? Somente assim, poderemos entrar na profundidade das bem-aventuranças. Estou certo de que, na sua vida, o Papa Francisco está vivendo as bem-aventuranças. E isto talvez seja o maior desafio: a coerência, o testemunho de um discípulo de Jesus.

fidencio

Frei Michael – Não, não é possível! É mais do que possível. É possível se nós pudermos de fato nos unirmos e darmo-nos as mãos, e juntos irmos ao encontro de Jesus. Volto a me referir às bem-aventuranças que se encontram no Capítulo 5 do Evangelho de São Mateus. Ali Jesus fala das pessoas que são puras de coração. Essa pureza do coração depende realmente da nossa abertura, da nossa atitude, de nosso acolhimento da presença de Jesus a cada dia. Creio que também nós não fazemos uma escolha em viver ou não a simplicidade.  É uma obrigação que vem do Evangelho. Jesus, ele mesmo, viveu esta vida. Estou certo de que também São Paulo nos convida a colocarmos tudo nas mãos de Deus, todas as preocupações, tudo enfim. Porém, para vivermos esta simplicidade, nós temos que ir, sair. Sair fisicamente, indo ao encontro dos pobres, dos sofredores, dos oprimidos. Creio que se nós fizermos esse movimento físico, talvez possamos começar o caminho mental e espiritual na direção da simplicidade. Porém, estou certo de que primeiro devemos fazer esse movimento físico, caso contrário há o risco de não chegarmos aonde o Senhor nos quer levar.

Comunicações – Na Ordem, hoje, o sr. consegue apontar algum exemplo deste deslocamento físico na direção do pobre?

Frei Michael – Eu diria que aqui, no Rio de Janeiro, há alguns exemplos de frades que estão vivendo nas favelas. E isso é muito importante. Há dois tipos de movimento de que quero falar. Diria que um é esse movimento de ir em direção aos pobres e de inserir-se entre eles. E há um outro movimento possível aqui no Brasil e em todo o território americano, que é ir em missão. E isso vale para todos os frades do mundo. Esses dois movimentos: na direção dos pobres, inserir-se entre eles, e esse movimento missionário.  Nós, frades, temos dificuldades de sairmos das grandes cidades e irmos às periferias,  e também às regiões  amazônicas. É impossível para nós pensarmos em viver sem internet – eu também vivo esta experiência -, mas podemos fazer essa experiência. Esses tipos de experiências em comunidades inseridas no meio dos pobres e outras novas formas evangélicas, enfim esta vida missionária pode nos ajudar a descobrir a simplicidade. Porém, a simplicidade não é um valor em si mesmo, é um serviço ao Reino de Deus. Tenho que contribuir para a transformação do mundo. Também as Palavras do Evangelho ganham seu sentido enquanto buscam a transformação do mundo.

conversa

Frei Michael – Em primeiro lugar, hoje no mundo, há uma grande crise de identidade. Não só dentro da Ordem, da Igreja, mas do mundo. Há uma profunda crise antropológica de identidade. Não quero comentar a política social no Brasil, mas não podemos ignorar que nesses últimos dois ou três meses surgiram tantas manifestações. Podemos ficar na superficialidade dizendo que isso é simples reflexo do descontentamento com o governo, com a corrupção, com a falta de trabalho, especialmente para os jovens. Recentemente, o Papa Francisco falou dessa crise global do desemprego. Estou certo de que por trás de tudo isso há uma crise de identidade humana e dos valores humanos, seja no Brasil, no México, nos Estados Unidos, na Ásia. Em quase todas as partes do mundo, há essa crise de identidade. Eu penso que isso não é uma consequência direta da globalização, mas faz parte do processo de globalização. Ainda podemos fazer duas leituras dessa experiência, duas maneiras de vê-la e interpretá-la: podemos fazer uma leitura negativa ou uma leitura positiva. E nós, como franciscanos, temos a obrigação de fazer uma leitura positiva, e isto porque acreditamos na Encarnação. Jesus está também presente no meio desta crise, e talvez Ele nos convide não a superarmos, mas a vivermos essa experiência e nela reaprendermos os verdadeiros valores humanos e espirituais de nossa vida.

criancaComunicações – Como é ser representante de São Francisco? Fale um pouco de sua vida, sua história, sua família, vocação e formação.

Frei Michael – Como disse há pouco, ainda não consigo imaginar que me encontro agora como servidor e Ministro Geral. Posso dizer que, antes disso, me considero um pecador e um simples frade. Como eu partilhei com os frades na Polônia, recentemente, em um encontro com mais de 200 frades da formação inicial, também vivi algumas crises na minha vida. Então, eu quero falar um pouco da minha vida. Foram tantas crises que me ensinaram muito. Quando estudava Direito na Universidade, fui convidado pelos protestantes para fazer uma experiência missionária numa região muito pobre nos Estados Unidos, onde havia uma comunidade de frades. Então, através desta experiência com os protestantes metodistas, descobri a experiência com os frades e os pobres, descobri que talvez Deus tivesse algo diferente para mim. Eu fui até a Universidade Franciscana, e ao seminário, para experimentar, para ver. Penso também que sou um produto da globalização no modo de ver as coisas. E assim pensava em fazer uma experiência franciscana por um tempo e, depois de um ano, faria uma avaliação e  veria se continuava ou não… É um pouco estranho, porque até há poucos anos eu continuava a levar adiante esse modo de ver as coisas. Durante quase toda a minha vida franciscana, fiz o que me parecia ser o caminho que o Senhor queria me propor. Durante o estudo de Teologia queria fazer uma experiência com os pobres e então fui. Vivi uma semana sem dinheiro e, quando voltei para casa, trazia comigo 500 dólares. E quando quis fazer uma experiência missionária na África, os superiores me deram autorização. Depois da Teologia, depois da ordenação, quando queria retornar à África, também estavam de acordo, então fui e fiquei dois anos como estudante, e seis anos como superior de uma missão na República Democrática do Congo. Depois, voltei aos Estados Unidos e dei aulas por dois anos numa escola de Chicago e então senti, em mim e também nos superiores, o desejo de aprofundar o estudo de antropologia e missiologia. Depois fiz doutorado em Antropologia Religiosa na Universidade de Birminghan, na Inglaterra. Terminado o curso, fui trabalhar na Conferência Episcopal Norte-americana como assessor de política internacional. Com essa experiência, os meus superiores me liberaram para trabalhar na Franciscans International em Nova York – uma organização não governamental que se compromete nas Nações Unidas pela justiça, pobreza e sustentabilidade do planeta em nome dos mais pobres -, onde pude colaborar com a Família Franciscana junto à ONU, levando as autoridades maiores a fazerem uma reflexão profunda sobre a crise e sobre as consequências de suas ações. Depois de dois anos, fui trabalhar na Cáritas dos Estados Unidos, desenvolvendo a temática da paz e da reconciliação. Depois de um ano, fui eleito Provincial da minha Província. Como a vida, às vezes, é estranha! Eu, que vivi quase o tempo todo fora da minha Província, fui escolhido Provincial. Agora, digo assim porque a mão de Deus estava sobre mim não porque eu quisesse ter essas responsabilidades, mas porque o Senhor me confiou esse serviço. E assim, com onze meses, fui como Provincial ao Capítulo Geral, com todo um programa que havíamos estabelecido na Província para seis anos, e os frades me escolheram como Vigário Geral. Eu não queria ser Vigário Geral. Depois, com a nomeação do Frei José Carballo como arcebispo e secretário da Congregação dos Religiosos, depois de um tempo de discernimento com representantes de todas as Conferências OFM no mundo, o Senhor fez comigo o que fez com o Profeta Jeremias: pegou-me e me virou no avesso, mais uma grande surpresa na minha vida, como ele sempre faz!

Essa é um pouco da minha história, mas o mais importante para mim agora é procurar a mesma coerência na minha vida que encontro na vida de Francisco, também na vida do Papa Francisco, e na de Jesus.

frades

Frei Michael – Nasci nos EUA de uma família irlandesa. Tenho também a nacionalidade irlandesa. Sempre fui um irlandês-americano. Isso me ajudou muito, no mundo, a ter uma identidade unificada. Eu tenho três irmãos e uma irmã. Oito sobrinhos e, ontem à noite (26), chegou o quarto sobrinho neto. Meus pais já morreram faz alguns anos.

Comunicações – Quais os desafios para um jovem frade hoje?

Frei Michael –  Antes de tudo, quando os jovens entram na Ordem, que está presente em 112 países, fica difícil traçar os desafios, pois são um tanto diversos. Porém, em geral, há alguns desafios que parecem estar mais ou menos presentes em quase todas as partes do mundo.  Um deles é a mudança da vida cotidiana anterior ao ingresso na Ordem para aquilo que propomos atualmente como forma de vida franciscana. Às vezes, esta proposta de vida dos frades aos jovens não se mostra coerente. Propomos que devemos ser homens de oração, mas muitas vezes deixamos que o serviço, o trabalho, as distrações, nos privem da oração. Assim convidamos os jovens a serem homens de oração e nós, no entanto, não o somos verdadeiramente. Esta é uma contradição que para eles é um desafio. Voltemos, então, à pergunta sobre a simplicidade. Nós, frades menores, temos que nos perguntar sobre o nosso estilo de vida. Quero saber para qual forma de vida estamos convidamos os jovens para seguir o Cristo. Todos nós, frades menores, devemos nos converter seja mentalmente seja no uso das coisas, e deixarmo-nos converter pelo Senhor. Porque os jovens são muito inteligentes e eles veem logo as contradições. E as contradições que se encontram em nossa vida provocam crises na vida deles. E aquilo que os jovens procuram é autenticidade e uma coerência na vida. E também a partir dos estudos desenvolvidos no Brasil, no México, na África e no mundo, os jovens procuram estar mais próximos dos pobres e dos sofredores. E, então, vindo para junto de nós, com o passar do tempo, eles aprendem um estilo de vida que os distancia dos pobres e dos sofredores, e isso os põe em crise. Talvez uma outra maneira de responder a isso é: não devemos deixar de nos questionar sobre esse desejo dos jovens. Eles podem nos ajudar a clarear o nosso sentido de vida. É uma graça que eles venham, mas devemos ser honestos.

Eu queria acrescentar que nos nossos programas de formação temos que acentuar mais o acompanhamento pessoal e isto em nível de formação inicial, e, na formação permanente, temos que fazer a mesma coisa. É preciso formar os guardiães para que eles possam formar e acompanhar os frades. Na verdade, nós todos precisamos ajudar no acompanhamento espiritual porque há tantos obstáculos com que nos deparamos, e decisões que tomamos que não são boas para nós. Precisamos de pessoas não tanto que julguem, mas nos ajudem a retomar a vida evangélica. Isso é muito importante: como formar os guardiães para fazerem isso? Quantas vezes deixamos um ou outro na Fraternidade sofrendo sem nunca perguntar: “Como você está?”. Nós comentamos entre nós: “Ele é assim”, “Ele tem problemas”, mas ninguém vai diretamente a ele perguntar: “Como você está? O que podemos fazer para ajudá-lo?”. “A tua vida vale a pena e eu tenho um compromisso para com você,  porque no Corpo de Cristo se um membro sofre, todos os outros sofrem também!”.

jovens

Frei Michael – Diria que entre os Ministros Gerais há um grande desejo de formar comunhão na Família Franciscana. Porque, de outro modo, essas fragmentações que fazem parte da globalização, enfraquecem o nosso testemunho. Estou certo de que, graças a Deus, nesse momento da história humana, temos a necessidade de nos ajudarmos reciprocamente. E isso faz parte da força do testemunho franciscano no mundo de hoje. Quanto aos jovens, há uma grande fome e sede por um significado na vida. Há um grande desejo de encontrar uma pessoa na vida. E esta pessoa aparece no canto oficial da JMJ, que diz: “Cristo te convida”. E foi com base numa pesquisa com os jovens que uma Religiosa, presente no encontro com os Ministros Gerais, chegou à conclusão de que muitos jovens deixam a Igreja mas não abandonam a sua procura por Deus. Eles estão procurando uma experiência espiritual profunda, que, às vezes, não se encontra na Igreja. Não a encontram,  porque, muitas vezes, quando vêm à igreja encontram uma liturgia morta, uma pregação que não é bem preparada e apresentada, e uma forma de oração muito vazia. Falta alegria, energia e esperança. Eu não posso simplesmente responsabilizar os jovens porque eles estão procurando onde há vida. Eles estão procurando onde há esperança e onde há amor verdadeiro. Creio que isso deva colocar-nos em crise, a nós, franciscanos, e a Igreja, para deixarmo-nos transformar por esta experiência. Ao mesmo tempo, os jovens que vimos aqui na JMJ e na Tenda Franciscana, eles ainda encontram esperança, alegria e amor na Igreja, e esta experiência que nós vivemos aqui é cheia de energia e alegria. E tem a música que nos ajuda também a agradecer ao Senhor e há uma forma de oração que nos ajuda a nos expressarmos. Eu creio que nós, como franciscanos, inspirados pela forma de pregar de Francisco e seus primeiros companheiros, devemos procurar tocar o coração das pessoas, e responder com água e pão que satisfaçam a sede e fome de Deus. Isso requer criatividade e coragem. Mesmo cometendo erros, prefiro correr riscos a criar espaços mortos. Não nos contentamos em esperar a morte. É essa atitude com nossa vocação franciscana, com nosso desejo e futuro em Cristo. Buscamos a Cristo para descobrirmos e encontrarmos a vida. Isso nos dá esperança, alegria, criatividade e energia. Este é o nosso futuro com os jovens: nossa transformação pessoal e comunitária.

(*) Colaboraram Frei Bruno Varriano, Frei Walter de Carvalho Jr. e Frei Gustavo Medella

 

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