Clericalismo, centralização e reforma da Igreja

Massimo Faggioli *

“A antiguidade nos ensina que os leigos são em grande parte hostis ao clero, fato que também fica claro a partir das experiências dos tempos atuais.”

Assim começa a bula papal Clericis laicos, publicada pelo Papa Bonifácio VIII em 1296. Seu objetivo era impedir que os Estados seculares da Europa – particularmente a França e a Inglaterra – se apropriassem dos rendimentos da Igreja sem a permissão expressa do Papa.

Mas a bula foi revogada apenas alguns meses depois de ter sido emitida, ressaltando tanto o alcance do poder papal quanto as suas limitações.

O incidente serve como exemplo dos problemas que enfrentamos na Igreja quando pensamos na reforma em termos de relação entre clero e laicato – que é, sem dúvida, uma das principais questões no centro da crise atual.

A história da Igreja Católica é também uma história de corrupção (não simplesmente de pecado, mas de corrupção sistêmica) e de reformas.

Uma das principais crises se desenrolou ao longo dos séculos XI-XIII, quando a Igreja lutou para reivindicar seu poder sobre os assuntos da Igreja – começando pela nomeação dos bispos – dos governantes seculares do império.

Não era apenas um problema de separação ou de distinção entre “Igreja e Estado”, como somos tentados a estruturá-lo hoje. Era também um problema de tornar a Igreja uma entidade que se preocupasse mais especificamente com a religião do que com a política.

Não é coincidência que foi naqueles séculos (entre 1059 e 1274) que o conclave foi desenvolvido como o colégio para eleger o Papa.

Era uma tentativa de impedir que a aristocracia romana controlasse a eleição papal e determinasse quem seria o bispo de Roma. Mas isso teve um preço: foi o início de um lento, mas constante, processo de clericalizar o cardinalato.

É por isso que criar mulheres cardeais é teoricamente possível hoje, mas exigiria uma inversão da trajetória dos últimos séculos. O problema não é o pré-requisito de que os cardeais devem ser padres, como declarado tanto no Código de Direito Canônico de 1917 quanto no atual (de 1983).

A tendência a clericalizar todas as posições de poder na Igreja – incluindo os cardeais – já havia começado centenas de anos antes. A legislação canônica do século XX apenas codificou e solidificou esse desenvolvimento eclesiológico e sociológico.

Outra grande crise explodiu no início do século XVI. Ela foi desencadeada pela denúncia por parte de Martinho Lutero da corrupção na Igreja, que se tornou uma das causas (embora certamente não a única) da Reforma Protestante.

O que é verdade hoje também era verdade cinco séculos atrás: a corrupção na Igreja diz respeito não apenas ao clero, mas envolve também o laicato, mesmo que de uma forma menos visível.

Mas Lutero focou seu ataque diretamente contra o sistema clerical e seus fundamentos teológicos e legais. A resposta muito atrasada de Roma foi reformar o clero – bispos e padres.

Como John O’Malley escreve no seu livro sobre o Concílio de Trento, “uma vida pessoal devota, que implicava dedicação aos próprios deveres pessoais, era agora o ideal que os prelados, incluindo o Papa e sua Cúria, queriam projetar”.

Trento influenciou todos os aspectos da vida eclesiástica e da cultura católica. A reforma do clero era uma parte estratégica disso. Em grande medida, ela funcionou, no sentido de que, depois de Trento, não temos mais os casos visivelmente obscenos de corrupção moral típicos da Igreja que Lutero viu quando visitou Roma em 1510.

Por outro lado, a reforma exigiu outro grau de clericalização da Igreja e outro grau de centralização em Roma – apesar de alguns bons instintos que os bispos de Trento tinham sobre a necessidade de revitalizar a conciliaridade local.

Esses dois exemplos mostram a magnitude da tarefa que está diante daqueles que querem reformar a Igreja Católica hoje.

A história nos diz que o catolicismo, especialmente no segundo milênio (que, mais do que o primeiro milênio, moldou a Igreja de hoje), teve o instinto de se purificar abraçando a clericalização do poder e sua centralização em Roma.

O Papa Francisco está bem ciente disso e está convencido de que a Igreja de hoje não pode suportar outra rodada de clericalização e de centralização. Seu plano para a reforma da Igreja – como evidenciado na sua exortação de 2013, Evangelii Gaudium – se baseia na descentralização.

O texto magistral mais interessante do Papa durante essa segunda onda da crise dos abusos sexuais clericais é a “Carta ao Povo de Deus” recentemente publicada. É uma acusação poderosa do clericalismo e, em certo sentido, é o oposto do que Bonifácio VIII escreveu em Clericis laicos.

A clericalização e a centralização foram a terapia-padrão que a Igreja do segundo milênio usou para combater a corrupção interna. Mas hoje a clericalização claramente não é a solução. Ao contrário, é o problema. A questão é o que fazer com ela.

O mesmo vale para o combate da centralização, que é muito mais complicada. Vale a pena pensar se a descentralização da Igreja Católica hoje requer impulsos vindos do centro.

A visão de Francisco de inverter a trajetória – da centralização à descentralização e da clericalização à sinodalidade – faz sentido teológica e historicamente.

De fato, é difícil imaginar uma Igreja mais centralizada e clerical do que no século XX.

Mas o problema, mais uma vez, é se o projeto de uma Igreja descentralizada e sinodal pode funcionar hoje de modo abrangente.

Em alguns lugares, como na Igreja Católica dos Estados Unidos, a crise dos abusos sexuais está emaranhada em uma crise teológica e religiosa do catolicismo muito mais ampla.

É difícil ver as condições adequadas na atual Igreja dos Estados Unidos para esse tipo de reforma de baixo para cima.

Tem-se a impressão de que Francisco detestaria injetar outra dose de centralização no corpo da Igreja e de que ele está esperando que as Igrejas locais tomem a questão em suas próprias mãos. Sob sua liderança, o Vaticano até agora mostrou uma notável abertura às iniciativas locais.

Mas algumas Igrejas – talvez até a maioria delas – não conseguem ver ou apreciar essa oportunidade.

O fato é que a descentralização e a sinodalidade exigem uma reforma estrutural e canônica, algo que não aconteceu até agora.

Está claro, por exemplo, que o futuro da Igreja Católica nos Estados Unidos repousa muito mais nas mãos dos leigos do que nas dos bispos.

Mas os católicos leigos não têm nenhuma representação visível e institucional – exceto a que é exercida pelos doadores ricos. No entanto, essa “eclesiologia do dinheiro” é apenas outro tipo de elitismo e de centralização na Igreja.

Mudar o curso da Igreja em relação à centralização e ao clericalismo exigirá uma mudança no coração e na cultura dos católicos. Mas também exigirá um esforço para implementar novas estruturas de responsabilização e de participação.

Um problema-chave é dar aos católicos leigos uma representação ou em instituições que ainda não existem, ou naquelas que foram criadas após o Concílio Vaticano II (por exemplo, conselhos paroquiais e conselhos pastorais diocesanos), mas têm sido negligenciadas e/ou esvaziadas.

Agora, aguardamos a reforma da Cúria Romana que estará contida na nova Constituição Apostólica provisoriamente intitulada Praedicate Evangelium. Os vários dicastérios do Vaticano atualmente estão estudando e sugerindo edições ao esboço desse texto.

Quando a constituição estiver finalizada e for publicada, talvez no início de 2019, ela poderá marcar um momento importante na reforma geral que está sendo buscada neste pontificado.

A reforma da Cúria certamente é um elemento-chave nesse esforço. Mas há também a necessidade de uma reforma da Igreja no nível local, embora isso pareça difícil sem algumas diretrizes específicas vindas de Roma.

Por exemplo, em alguns países, a liderança episcopal ainda é em grande parte composta por homens nomeados por João Paulo II e Bento XVI, e que empurram uma agenda precisamente contra a colegialidade e a sinodalidade.

Nesse tempo de crise, podemos ver claramente os frutos perigosos da mentalidade eclesiológica daquela geração de bispos. O paradoxo da situação atual, evidentemente, é que, em muitos casos, há conferências episcopais governadas por aqueles que não se importam com colegialidade e sinodalidade.

Se Francisco está esperando que os bispos ou suas conferências aceitem o desafio de reformar suas Igrejas de uma forma sinodal, talvez tenhamos que esperar um longo tempo.

Mas não podemos esperar que os bispos “assinem” as várias moções de reforma que estão circulando por aí agora ou que “renunciem” aos seus cargos. Uma nova fase na reforma da Igreja deve começar agora.

* Massimo Faggioli é historiador, professor da Villanova University (Estados Unidos), publicado por La Croix International. Tradução de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Ihu Unisinos